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Entender o Românico (confrontações), Cárquere. Para o Habitante e Visitante
sexta-feira, 10 de julho de 2015 Publicado por Notícias de Resende

Volvidas são algumas semanas as que estudei, com certo interesse, nos meus estudos historiográficos, o pós-modernismo na História. Para quem desconhece o pós-modernismo é a época que sucede a Época Moderna e que segundo alguns é a época que corre na contemporaneidade. Lidos alguns teóricos dos quais maior interesse se concentrou em Hayden White acabei por entender maior enquadramento ideológico, até pelo ventre neoliberal em que se segue o pós-modernismo, na época que supostamente se segue (se bem que eu de tal já duvide), tendo-me distanciado, em certa medida da Escola dos Annales, de cunho marcadamente de esquerda. Embora, na sua profissão, o investigador da História se deva distanciar e até abstrair, segundo as comumentes normas, das movimentações e tendências sociais, a própria História por se fazer de Homens nos mostra a total impossibilidade de tal. Não que diga eu que a investigação deva ser tendenciosa mas sim que siga determinadas diretivas de concretização.

Intriga-me que no pós-modernismo a História seja admitida como podendo ter diversos tratamentos que lhe darão, dependendo dos mesmos, diversos sentidos, o relativismo que inconvenientemente lhe trará, julgo, um excessivo relaxamento e consequentemente o hediondo tratamento da História pelo jornalismo, política, opinião e qualquer comum que se ache capaz do tratamento histórico sem a devida formação. Acredito que este arrepiante e perigoso tratamento da História, que ainda não sei se ciência ou arte, lhe trará progressivamente o esbater do rigor, da aproximada verdade. Nos tempos que correm são evidentes os benefícios económicos, revitalizadores, sociais da História, contrariando as ânsias de fim da disciplina como alguns físicos como Michio Kaku anseiam. Na presente data a História tornou-se, à luz de uma sociedade cada vez mais prática, útil, metamorfoseada do mero entretenimento e afirmação para, em colaboração com outras áreas específicas do saber, uma História a fim do fomento económico. Falta tornar a História útil sustentada.

Ora, todavia o que me leva a escrever este artigo, ainda que caminhe tentando definir ou indefinir tais considerações, é um pertinente tema atual, na região que maioritariamente me desperta o interesse e que em demasia me dedico: O românico em Cárquere.

Nos meus, ainda, parcos estudos em relação a Resende três realidades se me afrontam: a imensa panóplia de investigações que estão por fazer em relação à exploração arqueológica, às Honras (aristocracia) e ordens religiosas (estratificação social, divisão territorial, economia).

Pessoalmente sempre me interessou a História administrativa ao nível concelhio, da estrutura, da propriedade e por tal o interesse pelos contactos afincados entre Nobreza, Clero, Povo e a relação de poder. Quando falamos do Mosteiro de Cárquere obrigatoriamente temos de atender ao monaquismo Agostinho na Idade Média e Jesuíta na Idade Moderna, paralelamente aos agentes de atuação nobres, às disputas de poder, ao modelo de organização administrativo da propriedade e consequentemente à relação interdependente entre “Laborant”, “Orant” e “Pugnant”. Esta relação, não raras vezes, a par da relação entre o ente mortal e divino transformar-se-ia em arte se considerarmos a escultura e a arquitetura.

Não podemos de facto entender o Românico se não atendermos a um estilo arquitetónico enquadrado numa específica Época. O afrontamento da sociedade com a morte na Época Medieval traduzir-se-ia no culto às relíquias ou nas cruzadas. Muitas formas de culto medieval cristão radicavam no fundamentalismo. A crença de que a Terra era somente uma passagem para outra realidade, o paraíso, lembrava ao Homem a ideia de Inferno e de sofrimento eterno para os que não vivessem sob os fundamentos de Deus. A morte era a intermediária entre o terreno e o além e nenhuma outra Época na História representou tão bem artisticamente esta passagem como a Idade Média Ocidental. As pessoas viviam som um extraordinário medo da morte que repentina surgia ao sabor das doenças e das fomes (inter-relação) facilmente propagadas.

Na escultura medieval cristã é frequente conseguirmos identificar a conceção do purgatório, distintiva entre os polos Céu e Terra. Ao que parece a questão do purgatório terá surgido de uma incerteza proclamada nos Evangelhos que falam de um juízo “no fim dos tempos”. Assim o Cristão sentiria necessidade da aproximação a Deus, projetado no panorama superior. Os Santos, próximos da entidade superior, funcionam como intercetantes de rogação. A maioria funcionava como agentes de cura, seno que a sua intervenção era entendida como milagre. Alguns destes santos seriam adaptações pagãs resultantes da cristianização dos “rústicos”, como é caso, em grande grau de possibilidade, de Santa Maria de Cárquere. De facto a Romaria do Quarto Domingo do mês de Maio mais não será que a transposição de um ritual pagão de culto a uma Deusa da Fertilidade (veja-se a pequena imagem em marfim) a fim de um ano de bonança relativamente à agricultura.

A construção sacra durante o Românico fez assim despertar o interesse pelas relíquias, de tal forma que qualquer igreja ou altar, como garante da consagração, deveria possuir a relíquia de qualquer santo. No caso do Mosteiro de Cárquere existe a alusão, não comprovada, da posse de uma Relíquia do “Santo Lenho do Senhor”, ou seja de um pequeno fragmento da cruz de Cristo. A importância do culto dos santos expressa-se paralela mente nas doações de propriedades, de valor económico ou simplesmente sob a forma de ex-votos de cera, prática que ainda hoje é frequente. Algumas peças de cera, próximas e da contemporaneidade podem ser vistas no Mosteiro de Cárquere. A mim desperta-me particular interesse a pele de um réptil que na Igreja se pode encontrar, que se envolvendo em lendas, resultará, com certeza, num desses processos da fé praticantes.

Esta forma de culto secular devemo-lo em grande medida ao clero medieval que dominava grande parte das terras, os mosteiros haviam tornando-se os maiores preservadores das relíquias. De facto a sustentação da construção de um mosteiro passava por um mártir, ou por um “herói” da luta contra o mal, contra a obscuridade. Tome-se atenção ao enredo entre D. Afonso Henriques e o suposto milagre da virgem. Enquanto elemento histórico devemos extrair a tentativa de afirmação do mosteiro no apoio ao primeiro Rei Conquistador das terras pagãs, expulsando o culto islâmico (tão mal explorado pela historiografia da região).

O comparar do Mosteiro de Cárquere com as grandes abadias europeias é essencialmente não entender as particularidades dos estudos caso-a-caso, e, ainda, não atender ao enquadramento espacial e sobretudo ao desvirtuamento arquitetónico que o Mosteiro infelizmente sofreu, já não falando das pilhagens de que foi alvo. A construção de determinada estrutura medieval envolveria diversos agentes que correriam riscos. A construção da Habitação do Ente Divino pressuponha o alcançar da salvação divina.

As obras que decorrem no Mosteiro de Cárquere são provavelmente as primeiras realmente sérias e normativamente rígidas, contemplando a atenção à preservação e à não descaracterização, finalmente um bom tratamento para este secular monumento, que ainda que chegue tardio, chega sempre a tempo. Assim vejamos o que de românico, descaracterizado e polémico quando à sua caraterização na Igreja, tendo em conta o que já abordamos.
 
A Igreja de Cárquere, tipologicamente, não se enquadra em nenhum modelo de arquitetura rígida. Ao entrarmos na Igreja, pela porta principal descaraterizada, e sob o olhar do portal indefinido, enquadrado na fachada românica, encontramo-nos na nave central, sendo que às paredes de entrada que não se unem pela porta se dá o nome de colaterais. E cima encontramos um espaço de observação da missa a que se chama coro e que enquadrado na medievalidade se traduziria num sacrilégio praticado por aqueles que observam o senhor de cima e não se tornam submissos. Á esquerda podemos ver a adornada pia batismal, escondida na obscuridade de um canto.

Em frente, percorrendo as paredes onde, à direita, foi literalmente arrancado o que parece ter sido um pequeno púlpito, e onde passa um estreito corredor, tapado, entre paredes-meias, encontram-se os retábulos de talha barroca convidando à entrada na abside e escondendo pinturas religiosas cuja degradação vai tomando delas conta e cujo estudo apropriado e particular permanece por fazer. Entre a tralha observamos à esquerda estatuária, Nossa Senhora a Branca em pedra de Ançã esculpida no século XIV, que pela crença de a seus pés se raspar e com o pó beber água proveria as mães de uma boa amamentação a seus filhos, está ligeiramente degradada e remendada por gesso. Avançando entramos na abside da igreja de Cárquere, reparando nos cachos de uvas entre as folhas sendo penicados pelos pássaros, sinal de fertilidade e ainda no conjunto de figuras, representações transmudadas vigiando a passagem para o local mais sagrado da Igreja. Relativamente à abside Correia de Campos disse pensar ser uma estrutura pré-existente e não um acrescento, fletindo para a ideia de esta parte da Igreja poder ter sido um morabito ou uma mesquita. A confirmar a abside como construção posterior ao corpo da igreja a janela a sul em arco de ogiva que teria sido uma porta, não só seria desnecessária, como iria mesmo prejudicar a celebração eucarística, isto para além de ser algo completamente inédito em termos da arquitetura da época. O que parece ser certo a que a abóbada no local é uma abóbada de canhão quebrada, sendo que os panos que convergem no cimo são delimitados pelas arestas. Os capitéis que a suportam são simples e desprovidos de adornos, são chamados de capitéis cúbicos.

Ainda na abside, olhando o altar, à esquerda encontra-se a Capela-mor, atual sacristia, que demonstra evidências góticas (século XIII e princípios do Século XIV). Separadas por uma parede está a Capela-mor da Capela dos Resendes. A Capela dos Condes de Resende pode atribuir a sua construção ao século XV segundo nos conta Joaquim Duarte referindo-se à opinião de frei Teodoro Melo, com base de opinião no testamento do referido, o que projeta o problema de no exposto local se poder ver, a este, a afamada janela germinada de arco de volta perfeita considerada românica e do século XII, tratar-se-á, acreditando nos dados, de uma transposição ou de uma reconstrução do local. Indo ao encontro de variadas considerações partilho aqui a um trecho da observação de Correia de Campos relativamente ao local: “Também notámos, surpreendidos, que os modilhões, já empregados pelos árabes, mas considerados ainda pelos nossos críticos de arte como românicos tivessem sido apostos na pequena edificação, aliás indevidamente classificada de gótica”.

Assim complicado será definir tão extenso, construtivamente, monumento nacional, bastando dizer a quem queira visitar o Mosteiro de Cárquere que a ele não bastará pois lançar o olhar ou aos avançados cabeços serranos do Montemuro, é toda uma História que se quer fazer sentida, compreendida e essencialmente não esquecida. Por isso quando entrar numa Igreja Românica lembre-se que entra, simultaneamente, numa espécie de “portal do tempo” que o faz ligar o presente à secularidade, a sua curiosidade à fé de gerações, a sua visita às complicadas teias de relações que só uma importante estrutura histórica sabe relatar.

Joel Lourenço

Bibliografia consultada:
GIL, Júlio; CABRITA, Augusto; As Mais Belas Igrejas de Portugal; Coleção Património; Vol. II; Editora Edimpresa; 2003.
BOSSY, Jonh; A Cristandade no Ocidente; Edições 70; 1985.
BROWN, Peter; A Ascensão do Cristianismo no Ocidente; Edição 7; Coleção Construir a Europa; Editorial Presença;.
Revista História Viva; Edição Especial, Temática, Número 25.
CLETO, Joel e FARO, Suzana - Santa Maria de Cárquere: Uma história de pernas. O Comércio do Porto. Revista Domingo, Porto, 20 Junho 1999.
DUARTE, Joaquim Correia; in Resende e a sua História; Vol. 2: As Freguesia; Ed. Câmara Municipal de Resende.
CORREIA, Vergílio- Monumentos e esculturas: séculos III-XVI. Lisboa: Livraria Ferin, 1924.

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