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Exclusivo: Entrevista a José Cid na Festa de S. João, em Cinfães – “Menino Prodígio”
segunda-feira, 23 de junho de 2014 Publicado por Notícias de Resende

José Cid esteve em Cinfães para um concerto na Festa de S. João, no passado dia 21 de Junho e esteve à conversa com João Pereira. Falou da vida profissional e pessoal, do passado, do presente e do futuro. Sempre bem disposto, animado e disponível para responder a todas as questões, confessou que vai continuar a cantar até lhe faltar a voz, que está a criar um partido para concorrer às Eleições Legislativas em 2015 e, num lado mais íntimo, que encontrou a mulher da sua vida. Reafirmou ser “a mãe do rock português” e lançou duras críticas a Rui Veloso. Depois de um grande concerto de mais de duas horas, a mostrar que a idade não quer dizer nada, apresentando músicas novas e anunciando o lançamento de um novo álbum para Setembro deste ano, deixou elogios a Cinfães, à região e às gentes. Confidenciou ainda conhecer muito bem Resende.

João Pereira – Depois do que assisti ali fora durante mais de duas horas é inevitável começar por aqui… Considera-se um “dinossauro” da música portuguesa?

José Cid – Eu acho que sou um dinossauro da música mundial, só que nasci em Portugal… (risos) A diferença é essa. [É daí que vem aquela frase “Se o Elton John tivesse nascido na chamusca não teria alcançado tanto sucesso”?] Não, estava feito. Se tem nascido aqui em Cinfães, não existia! E pronto, estou muito contente por isso, muito contente por estar aqui e por poder contribuir para o bem estar do meu país, dar alegria e contribuir como cidadão. Não sei se serei um dinossauro… Eu gostava mais de ser um mito… (risos) Um mito era mais divertido porque o dinossauro é uma chatice, só ossos… (risos).



JP – Tem 72 anos, completados em Fevereiro deste ano. Vai cantar para sempre?

JC – Vou cantar enquanto tiver voz. Eu acho que é horrível as pessoas não perceberem quando deixam de ter voz e continuarem a cantar. Vou dar um exemplo: correr em fórmula um e depois acabar no rally papper lá da aldeia deles. Não vale a pena. Vou cantar enquanto tiver voz… E enquanto Deus me der saúde, claro. Portanto, não é uma questão de idade; é uma questão de ter voz. Houve pessoas na música portuguesa que se arrastaram, no final de carreira, de uma forma muito triste. Mas depois, as pessoas perdoaram-lhes, ficaram mitos à mesma. Mas arrastar-me, não vou arrastar. Não tenho pachorra. Até porque eu sou músico, posso acompanhar outros cantores. Tenho aqui o meu sobrinho, Gonçalo Tavares, o Zé Perdigão… Tenho outros cantores que eu posso acompanhar, que eu posso produzir.

JP – Já tinha estado em Cinfães? O que acha desta região e destas gentes? 

JC – Fabuloso. Público extraordinário! Altamente civilizado, altamente evoluído, aceitou as propostas que eu fiz de inovação no meu reportório porque eu não vi cá só cantar músicas mais antigas e mais conhecidas, vim cantar também cinco ou seis canções totalmente novas e foram recebidas com apreciação, com sensibilidade. Foi isso que eu senti.



JP – É muito importante para si estes concertos? É muito importante cantar ao vivo?

JC – Eu sou um cantor ao vivo. Há cantores que até são melhores do que eu em disco mas não chegam aos meus calcanhares ao vivo. Há pessoas que têm discos espantosos e ao vivo não são tão boas quanto isso e eu se calhar sou o contrário. Para já, também não passo muito na rádio, tenho um braço de ferro grande com a rádio portuguesa. Mas sou um cantor ao vivo; as pessoas não me ouvem nas rádios mas depois querem ver-me e ouvir-me ao vivo e então percebem que eu sou um cantor ao vivo.

JP – Falou nas rádios e eu aproveito para lhe perguntar o seguinte: “Vendedor de Sonhos” é um disco que lança em 1994. Atrás desse disco vem a polémica, quando pousa nu (apenas com o disco a tapar as partes íntimas) para uma revista social em forma de protesto com as rádios portuguesas pela forma como desprezavam a música nacional. Hoje continua a ser assim?

JC – Quer dizer… Eu sofri as consequências disso porque sou boicotado em todas as rádios, não passo em rádio nenhuma. E tenho discos infinitamente melhores que pelo menos 90% dos que passam lá, mas pronto… eu calo-me porque as pessoas depois querem-me vir ouvir ao vivo. Efetivamente, as playlist que apareceram em 1994 vieram destruir completamente a ideia dos radialistas. As pessoas que fazem rádio já não têm opinião pessoal, não podem ter o seu gosto pessoal, não podem ter os seus discos numa saca. “Eu gosto desta música, é esta música que eu vou passar no meu programa. Vou anunciar os autores, vou anunciar os poetas, vou anunciar os interpretes.”, isso não existe hoje. Hoje, a música que passa na rádio faz parte de um puzzle em que uns meninos muito engraçados e umas meninas muito engraçadas que falam pelos cotovelos, que se auto promovem uns aos outros e não promovem aquilo que é a poesia, as bandas, os músicos, os poetas, os produtores… Tudo o que se passa nos bastidores da música que é o mais importante. [Mas consegue ter uma explicação para isso? Acha que é um costume de quem está à frente das rádios nacionais?] É a mudança pela negativa das coisas: a inversão dos valores e depois a falta, inclusivamente de direito, das pessoas que gostam de rádio e que fazem rádio terem uma opinião pessoal e não serem cingidas a uma playlist que lhes impõem e que muitas vezes é feita por estrangeiros em Portugal.



JP - Em 2009 teve mais um reconhecimento do seu trabalho. Foi galardoado pela Sociedade Portuguesa de Autores, sendo o primeiro músico a receber esse prémio. Como se sentiu?

JC – Senti-me bem, mas achei que havia outros que tinham o direito de receber. Mas sendo eu, acho muito bem, fiquei muito contente!

JP – Como é que é isso de ser a mãe do Rock português? ("Se o Rui Veloso é o pai do rock português, eu sou a mãe." in Queima das Fitas do Porto, 2004;)

JC – É simples: quando eu tenho um álbum nomeado entre os 10 melhores álbuns do mundo, pela crítica americana há muito pouco tempo, é ridículo que o pai do rock português não aceite a ideia, não seja capaz de dizer uma vez na vida, “Não, isto não é assim. Eu faço parte do rock português mas atenção, tenho um respeitinho pelo meu amigo e colega José Cid que tem nível mundial e tem uma carreira mundial a nível de rock.”. [Falta-lhe esse reconhecimento em Portugal?] Não, é que o Rui Veloso tem um ego, independentemente da obra dele, tem um ego tão grande, tão grande, tão grande que nunca reconheceu uma pessoa que está ao lado dele e que se chama Carlos Tê, que é um homem genial e que ele nunca reconheceu. O ego do Rui ultrapassa as coisas todas, depois sofre as consequências. Eu na brincadeira disse “Epá tu és o pai, eu sou a mãe!”. A mãe toda a gente sabe quem é, o pai… Então, é o que se passa. Acabou.

JP – Em 1969, o seu primeiro disco a solo é proibido pela censura. No ano em que se completam 40 anos depois da Revolução de 25 de Abril de 1974, quer fazer uma comparação sobre o tempo de Salazar e o tempo que vivemos agora? Portugal está melhor?

JC – Eu acho que o povo português é o melhor povo do mundo. O 25 de Abril é um movimento que falhou em termos económicos e sociais porque aumentou a pobreza e não aumentou a riqueza. O papel do 25 de Abril era aumentar a riqueza e a classe média, não destruí-las. E pressionar e tachar as pessoas com maiores fortunas porque deviam ser tachadas! O 25 de Abril permite offshores escandalosos, faraónicos lá fora. Eles têm todos um conluio medonho, os políticos entre eles: os amigos dos amigos, dos amigos… Toda a gente sabe que eles têm offshores lá fora. Só os offshores que estão fora de Portugal, se fossem transportados para Portugal, não era para tirar às pessoas que são donas deles mas para obrigar essas pessoas a pagar juros e impostos sobre esses offshores, estava resolvida grande parte da crise económica em Portugal. Isso não é feito porque este sistema é perverso. É um sistema que não presta. Não é um sistema cultural, não é um sistema humano, não houve as pessoas e no dia em que nos integramos na Europa perdemos a nossa identidade política porque somos mandados lá por fora, perdemos a nossa identidade económica e só nos resta uma que é a identidade cultural. E é de tal maneira ridículo e mal pensado este país que nem um Ministério da Cultura temos e ainda por cima tivemos vários ministros anteriormente que eram da Cultura mas que nem sequer eram cultos. Ser culto não é ler muita coisa; É ser culto e ter criatividade, acompanhar essa cultura com criatividade. É um país mal pensado, é um país que tem que mudar. Eu estou a formar um partido que se chama “Nós Cidadãos” em que vamos ter um partido que tenha uma mesa redonda a mandar nele, de pessoas de vários quadrantes que interpretem o sentido do povo em geral, que não tenham offshores, que não sejam corruptos, que sejam culturais, que sejam humanos e que oiçam as pessoas, porque o grande mal destes sistemas políticos últimos é que não ouvem o povo. Não ouvem nem estão dispostos a fazê-lo. Já sabem tudo e como diz o Sr. Presidente da República: “Sabe tudo e não tem dúvidas.”, portanto, são sistemas que não prestam! Eu não gosto deles, sou mais velho que eles porque eu sou mais velho que o Presidente da República e o Primeiro-Ministro e tenho direito a ter uma opinião. Eles não vão ficar na história por tudo aquilo que não têm feito. Têm visto o país ir-se embora e não fizeram nada, rigorosamente nada! E eu estou a formar neste momento um partido que vai tentar concorrer às Eleições Legislativas em 2015 para convencer que há alternativas a este conluio entre o Partido Socialista e a Social Democracia. [As pessoas estão cansadas de alguns partidos?] Pois estão! A abstenção que se passa neste país é a prova cabal que há outro partido fora dos partidos que é muito maior que eles.



JP – Descobri que se assume como monárquico e anarquista. Porquê? Não se revê na República?

JC – Eu sou monárquico mas não sou monárquico por elitismo ou por nobrezas de promoção social. Eu sou monárquico porque os sistemas monárquicos, com defeitos, são os sistemas mais perfeitos do planeta. Os sistemas monárquicos do Norte da Europa são os sistemas mais culturais, são sistemas onde há melhor nível de vida e são sistemas mais justos. Paga-se impostos, imensos. Mas os nosso filhos podem ser educados a custo zero, se adoeceres és tratado nos melhores hospitais do planeta a custo zero. Paga-se impostos mas sabe-se que se tem retorno. Aqui tu pagas impostos e nem sabes para onde é que os impostos vão. São sistemas mais perfeitos, não serão totalmente perfeitos. Só Deus é perfeito e mesmo esse não se revela; porque se fosse perfeito não deixava haver tanta injustiça no mundo. A minha ideia é um sistema monárquico que copie os parâmetros do Norte da Europa porque são mais culturais, menos corruptos e mais equitativos e que defenda a ideia de um país mais justo porque nós, volto a repetir, somos o melhor povo do mundo. Portugal tem o melhor povo do mundo!  Desde o Marquês de Pombal não tem sido bem pensado…

JP – Falou em Deus mas já não canta “Amar como Jesus amou”. Porquê?

JC – Não porque já não temos fumos no palco para infestar as criancinhas com máquinas de fumo… (risos) Era o meu sobrinho que está ali, o irmão e o chico que apontavam as máquinas de fumo para cima das criancinhas… (risos) Eu acredito em Deus, mas é de outra forma!

JP – Depois de várias participações no Festival da Canção, em 1980 vence com a canção “Um grande, grande amor”. De seguida, no Festival da Eurovisão da Canção, conquista o 7º lugar entre 19 concorrentes, uma das melhores classificações de sempre de Portugal. É um momento importante na sua carreira? Acha que hoje em dia se desvaloriza o Festival da Canção?

JC – Não. Foi uma teimosia. Eu tinha ficado seis vezes em segundo lugar e jurei que um dia havia de ganhar. E foi simples: aliei-me ao inimigo; passei para a editora que normalmente ganhava os festivais todos os anos e resolvi ganhar! E no dia em que eu resolvi ganhar tinha políticos a apoiar-me. Sá Carneiro tinha dito: “Este ano é aquele gajo que eu quero que ganhe!”. Por acaso eu tinha guardado a canção com que eu queria ir à Eurovisão dentro da gaveta e achei engraçadíssimo o desespero com que alguns gajos em Portugal que tinham jurado que eu nunca iria à Eurovisão me veem ir para lá como favorito. O Festival da Canção hoje é uma coisa que não tem interesse nenhum a não ser para apreciar a tecnologia e a produção do espetáculo em si. O resto é completamente ridículo: a forma como televisão portuguesa seleciona a canção lá para fora é impensável!

JP – Disse numa entrevista ao Daniel Oliveira no Alta Definição, há uns anos, que “não tinha pachorra para uma mulher todos os dias”…

JC – Mas agora tenho! As pessoas podem mudar… Encontrei a mulher da minha vida, muitos anos depois. Tínhamos tido um grande romance na Austrália, há 30 anos atrás. Ela era refugiada timorense, era jornalista. Hoje reencontramo-nos e a minha atual mulher é para o resto da vida, é fantástica.

JP – “Nasci pra música” é a história da sua vida?

JC – Eu acho que “Menino prodígio” começa a ser mais a história da minha vida porque estou quase a ser levado pelos braços de Orfeu e morri. O menino prodígio que eu era morreu, o epitáfio sou eu, como diz na canção. E é uma forma de dizer ao público que eu venho aqui para os divertir, para os fazer alegres, para agitarem os braços, curtirem as ideias e estarem numa boa!

JP – José Cid, muito obrigado!

JC – Eu é que agradeço!

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2 comentários para "Exclusivo: Entrevista a José Cid na Festa de S. João, em Cinfães – “Menino Prodígio”"

  1. Anónimo

    por favor mais partidos politicos nao!

  2. Anónimo

    jose cid vai ficar na historia nao precisa formar partido !

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