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CINEMA: Crítica “12 Anos escravo”
quarta-feira, 4 de junho de 2014 Publicado por Notícias de Resende

Lupita Nyong'o é provavelmente a mulher negra mas falada nos últimos tempos. A vencedora do Óscar de Melhor Atriz Secundária da edição deste ano saltou para a fama com a sua prestação no filme “12 Anos escravo”. E porque começo esta crítica com ela? Porque este mês o auditório municipal de Resende traz  Lupita em dose dupla. No dia 13 de Junho é exibido o thriller “Non Stop”, onde a atriz se junta a atores de renome tal como Liam Neeson e Julianne Moore. Por sua vez no dia 27 é exibido o já acima referido “12 Anos escravo”. E é precisamente sobre o segundo, vencedor do Óscar de Melhor Filme, que irei falar.

Segundo a sinopse “Na pré-Guerra Civil dos Estados Unidos, Solomon Northup, um homem negro livre de Nova Iorque, é raptado e vendido como escravo. Enfrentando a crueldade mas também momentos de  inesperada bondade, Solomon luta não só para se manter vivo, mas para preservar a sua dignidade. Após 12 anos de uma odisseia inesquecível, Solomon conhece um abolicionista do Canadá que vai mudar para sempre a sua vida.” O filme faz jus ao prémio que recebeu. “12 Anos escravo” é uma história comovente e chocante que mostra as tormentas pelas quais os negros passaram às mãos de pessoas que se achavam superiores devido ao seu tom de pele. Eu faço parte do grupo que sente vergonha ao ver as atrocidades que os nossos antepassados fizeram. O facto de se acharem donos e senhores de seres inferiores, de os considerarem objectos descartáveis que se poderiam usar para os mais diversos fins, sendo o profissional e sexual os mais usuais, e depois simplesmente poderem ser “deitados fora” muitas vezes até abatidos a tiro não abona a favor de uma raça chamada superior. Superior em quê? Se prestarmos atenção ao filme de Steven McQueen as personagens superiores são as negras, porque apesar da crueldade que lhes é infligida são corajosas, têm esperança, entreajudam-se… Sempre com a ideia de que um dia o sofrimento acabará e poderão ser livres e viver em igualdade.

Chiwetel Ejiofor tem o papel da vida dele. O actor com carreira profissional desde 1996 consegue agora destacar-se como Solomon. É possível ver o sofrimento da personagem através do olhar, de expressões faciais. Por certo que o verdadeiro Solomon se cá estivesse concordaria que a escolha do realizador não poderia ser melhor. Acompanhamos as tormentas, as dores, a revolta como se fossemos nós.

Michael Fassbender é brilhantemente detestável como Edwin Epps. O dono dos escravos é louco, desvairado e com acessos de raiva repentinos na relação amor-ódio que tem uma escrava. Se por um lado a detesta por ser negra e inferior, por outro a detesta ainda mais por amá-la e ser rejeitado. A cena em que a chicoteia é talvez a mais abominável de todo o filme e a que demonstra o quão bom actor ele consegue ser. Porque apenas um bom profissional consegue interpretar tão bem alguém e fazer-nos gostar de um ser do mais reles e baixo que pode haver como é a sua personagem.

Destaco ainda Benedict Cumberbatch no papel de Ford. O britânico, conhecido pela sua gentileza e educação e que normalmente encarna personagens igualmente gentis e educadas, não foge à regra neste filme. Ford tem escravos porque toda a gente tem. Trata-os bem, dentro das possibilidades, e acaba por ceder aos seus pedidos devido ao bom coração. É o melhor patrão que Solomon poderia ter, e só não faz mais por ele porque não pode. É a personagem que nos faz restituir a fé no homem branco, é aquele que apesar de toda a tirania que o rodeia consegue ser bondoso e justo. Chega uma altura que não associamos o Ford e sim o Benedict quando o vemos no ecrã.

O mesmo se passa com Brad Pitt, ele que tem um papel pequeno mas importante no desenrolar do filme aparece como ele próprio. Não, o sr. Pitt ainda não era vivo no final do Séc. XIX, mas conhecendo as causas humanitárias em que está envolvido e os ideais que defende quando vemos a sua personagem pensamos “É o Brad Pitt”.

Para terminar e voltando ao início desta crítica temos a Lupita. Lupita N’yongo tem em Patsey o seu primeiro papel no grande ecrã. Agarrou a oportunidade, interpretou da melhor maneira e levou o Óscar de Melhor Atriz para casa. Mais que merecido. A Patsey é talvez a personagem mais violentada e sofredora de todo o filme. O simples facto de ir comprar sabão para se poder lavar faz com que seja chicoteada até ficar em carne viva. E se custa vê-la a ser chicoteada pelo patrão, custa mais ainda quando Solomon é obrigado a fazer-lhe isso. Toda a gente sabe que o que está a acontecer no filme não é real. Mas é impossível não sofrer juntamente com ela nessa cena do filme. Nessa e em outras nas quais Patsey é brutalmente castigada. O único crime da personagem é talvez o de ser atraente para o patrão. O que faz com que tão depressa a ame como depois num acesso de raiva a espanque. O facto da patroa morrer de ciúmes por ela não ajuda à sua sobrevivência. E mesmo assim Patsey é simples, e não quer que tenham pena dela, quer apenas poder sobreviver mais um dia.

“12 Anos escravo” é isso. O retrato brutal, porém verdadeiro, de um negro que nasceu na época errada. Numa altura em que eram considerados inferiores, infelizmente hoje em dia ainda há quem pense assim, o lixo da sociedade e que eram meros animais e instrumentos de trabalho. Steve McQueen retrata fielmente esta mancha da história da Humanidade. Mancha essa que gostaríamos que fosse removida. Mas se não o podemos fazer convém lembrar em vez de tentar esquecer. É um filme que merece um olhar atento e uma reflexão da nossa parte das asneiras que fizemos. Do facto de falarmos tanta vez que os negros são selvagens e não nos lembrarmos que nós é que invadimos o seu espaço, que se fosse ao contrário talvez fossemos nós os revoltados hoje em dia. Porque enquanto nos lembrarmos das coisas não cairemos na tentação de as tornar a repetir. Pelo menos assim espero.

Bons filmes!
Raquel Evangelina

Notícias de Resende

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