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Entrevista a Valter Hugo Mãe
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014 Publicado por Notícias de Resende

No passado dia 31 de Janeiro, o escritor Valter Hugo Mãe marcou presença no Externato D. Afonso Henriques. O evento intitulado “A Humanização das Palavras”, foi organizado pela equipa da biblioteca da escola para a qual a presença de Valter Hugo era uma ideia já antiga. Para José Augusto Pereira, professor e moderador no evento, este tipo de iniciativa é um incentivo dos alunos à leitura até porque sentem curiosidade em saber mais sobre o autor antes de o conhecerem.

Dividida em duas sessões, uma apenas para a Comunidade do Externato e outra para o público em geral, o escritor falou acerca do seu último trabalho “Desumanização” e um pouco sobre a sua vida, o que o levou a ser escritor. A sessão contou ainda com leituras de poemas de Valter Hugo pelos alunos do Externato e interpretações musicais por Gisela Borges, ex-aluna. O escritor sempre acessível tentou responder a todas as solicitações do público e abordou questões preocupantes na comunidade escolar como, por exemplo, o caso do bullying. Em jeito de humor contou ainda a sua paixão por Adriana Calcanhoto, cantora brasileira, para a qual escreveu um livro que era uma declaração de amor à mesma. Tudo para transmitir a ideia de, segundo as palavras do próprio, “(…) se ela se fosse embora eu não tinha mais alegria. Mas depois descobri que estava enganado. Ela foi embora e eu fiquei na mesma alegre. Nós não devemos ficar muito tempo a lamentar por quem não nos quer; não nos querem pronto a gente arranja quem queira.

No fim da palestra a assistência teve a oportunidade de conversar com o autor, tirar fotos ou pedir autógrafos para os livros. Quem não os tivesse podia adquirir na cerimónia já que a organização colocou vários à venda.   

O Notícias de Resende, nomeadamente os colaboradores João Pereira e Raquel Evangelina, esteve à conversa com o autor. A entrevista é a que segue abaixo transcrita.

Notícias de Resende - É importante para si este tipo de ações em escolas, junto das comunidades escolares, principalmente alunos? O que significa para si estar em contacto com os alunos?
Valter Hugo Mãe- É importante, sobretudo porque eu acredito verdadeiramente que vale a pena no tempo da formação nós seduzirmos as pessoas para a importância do livro, da leitura. Por vezes tenho dito que de alguma forma o livro é o ginásio do pensamento, da cabeça, e talvez importe menos que tenhamos o corpo bem trabalhado se tivermos o pensamento raquítico. Então falar com os alunos nestas idades em que eles aina podem ser sensíveis, deixarem-se seduzir, deixarem-se apaixonar pela importância do conhecimento é muito importante, por isso a mim interessa-me muito vir aqui, estou muito contente por estar aqui.   



N.R.- Sobre a atualidade nacional, escreveu recentemente no seu facebook e passo a citar, “(…) ainda não consegui ultrapassar o nojo que sinto pela tentativa da jsd para a retirada de direitos a uma considerável quantidade de crianças deste país”, isto sobre o Referendo à adoção e co-adoção por casais homossexuais. Não concorda com este referendo? Porquê?
V.H.M.- Não concordo porque acho que os direitos fundamentais das pessoas não se podem referendar. Não podemos perguntar aos outros se acham que devemos ou não ter a nossa dignidade. A dignidade não é uma questão que se coloque, que se pergunte a ninguém, é uma questão que tem de ser absolutamente defendida. E não concordo que digamos que estão em causa os casais homossexuais porque nós também não sabemos se nos casais entre homem e mulher também não está em causa alguém homossexual. Em relação a um casal nós nunca temos a noção da sua sexualidade. Em última análise um casal normal nem sequer tem relações. Os casais normais têm dois ou três filhos e depois não fazem mais sexo. Por isso não está em causa a sexualidade das pessoas o que está em causa é apenas o facto de duas pessoas comungarem, terem uma vida em comum e por acaso alguma delas ter um filho. Como é que esteja criança fica? Uma criança que esteja habituada, que cresça com dois pais ou duas mães, com um pai e mãe, ou só um pai, só uma mãe ou até mesmo com os avós, a realidade para ela é absolutamente normal. Portanto aquilo que caus impressão às pessoas não é o universo das crianças, é exactamente o dos adultos, do preconceito que domina esse universo. E acho que nós não podemos perguntar, não devemos ser nós a decidir a felicidade de uma família alheia. Até porque em última análise todas as famílias são esquisitas, todas são disfuncionais, todas têm problemas, nenhuma é perfeita e por isso não podemos legislar no sentido de obrigar a que as famílias sejam perfeitas.   

N.R.- Escreveu ainda também, recentemente, no seu facebook, sobre o suicídio de um jovem de 15 anos alegadamente por motivos de “bullying” na sua escola. Esta questão é um tema que o preocupa e que acha que deveria ter mais atenção por parte das tutelas das escolas?
V.H.M.- Sim, exactamente nesta idade de crescimento e de formação em que a personalidade ainda se esta a afirmar e de alguma forma as pessoas estão a tentar encontrar a sua própria segurança, a sua própria auto-estima é muito importante que nós estejamos atentos. Talvez, mais importante que aprenderem matemática, é aprenderem o respeito, aprenderem no fundo essa coisa absolutamente necessária de percebermos a diferença que temos dos outros e por isso necessariamente reclamarmos o direito à nossa diferença e respeitarmos o direito à diferença dos outros.  


N.R.- Lançou, recentemente, o livro “Desumanização”, o seu sexto romance. Qual é a questão principal deste livro? Pode-nos falar um pouco sobre a história do mesmo?
V.H.M.- Este livro é narrado por uma menina. Toda a história é contada no feminino por uma criança que vai dos 11 aos 14 anos. Esta criança a Halldora perde a sua irmã gémea e todo o texto é um modo de pensar acerca da solidão, ou seja, do estar longe, viver num sítio recôndito como são os fiordes islandeses e além de estar longe estar substancialmente só. Ajudou-me no fundo a pensar no que é uma espécie de espiritualização do lugar e de ter a própria natureza como companhia, digamos assim.

N.R.- Dosse numa entrevista que uma das explicações dadas para a escolha deste título foi pelo facto de termos que nos tornar mais desumanos para sobreviver. No entanto ainda recentemente foi noticiado que ajudou um casal. Ou seja afinal acha que temos mesmo que nos “desapegar” e pensar mais em nós ou ainda acredita na bondade humana?
V.H.M.- O que eu dizia é que infelizmente a resistência perante o mundo implica que nós desçamos as nossas sensibilidades, ou seja, a pessoa demasiadamente sensível não consegue nem ser feliz, nem sobreviver muito tempo e então frustantemente todos nós somos obrigados a robustecer-nos, a sermos menos sensíveis para conseguirmos de alguma forma enfrentar a vida tal como ela é, com as suas dificuldades, a sua violência e isso é uma das frustrações que eu encontro para a humanidade que tem que ver com os nós sabermos muito bem como poderíamos ser melhores mas não sermos capazes de chegar aí porque a vida simplesmente não deixa. Todo o sistema, como está montado e tudo para o que a vida nos prepara propende para um certo sofrimento, um esforço contínuo… A felicidade nunca é senão uma coisa passageira, e a tristeza ajuda-nos muitas vezes a resolver problemas nossos. A tristeza contínua não é humana é uma desumanidade.

N.R.- O romance passa-se na Islândia. Porquê a escolha deste país? O que o liga a um país tão distante de Portugal? Porque não África, onde tem as suas raízes?
V.H.M.- Eu quis muito falar na Islândia porque o país tem essa dimensão agreste quase abusiva para se lá ficar. Eu imagino que as primeiras pessoas quando descobriram a Islândia no século X, devem ter tido problemas mentais quando olharam para aquele gelo e disseram “Isto é interessante! É bonito! Vou ficar a viver aqui.” A viver como? Porquê? Viver num sítio tão inóspito. E ao fim de uns séculos a sociedade islandesa, enfrentando sempre esse desafio da intempérie, do frio e do longe, é muito cívica e educada. E eu quis perceber como é que estas pessoas que vivem num local tão baldio, como é que esta gente se disciplinou desta forma. Eu admiro-os muito.  


N.R.- Foi galardoado várias vezes, com vários prémios. Entre eles, o Prémio Almeida Garret em 1999, Prémio Literário José Saramago da Fundação Círculo de Leitores em 2007 e, mais recentemente, o Prémio Portugal Telecom de Literatura Portuguesa, 2012. Todos eles são importantes e reconhecedores do seu trabalho, mas permita-me que destaque o Prémio Literário José Saramago. O que sentiu quando foi reconhecido com o Prémio que tem o nome do escritor português que foi galardoado com o Prémio Nobel da Literatura?
V.H.M.- Fiquei muito honrado também porque o José Saramago era uma pessoa que eu admirava muito pela sua atitude de incómodo permanente. Era um homem que se incomodava permanentemente com as questões do quotidiano, da nossa sociedade, da nossa política e eu admiro muito isso. Admiro muito as pessoas que têm a coragem de ter uma opinião, de pensar de boa-fé e honestamente sobre os assuntos. Acho que o pior que podemos ter é gente boa calada porque os maus refilam sempre e gente boa calada é como se não servisse para nada. Tive muito orgulho em ganhar o prémio Saramago e poder conhecê-lo um pouco melhor e perceber que toda a obra dele foi uma proposta de boa-fé para que pensemos melhor em sociedade.

N.R.- Falando em Saramago, quais são os autores que o influenciam?
V.H.M.- Eu li e admiro muito Kafka, por exemplo, mas também li muita poesia. Aliás a poesia é a minha grande biblioteca e então os meus autores foram sempre o Herberto Helder, o Luis Miguel Nava, o Al Berto, a Adília Lopes, Sharon Olds, Walt Whitman, uma quantidade enorme de gente. Mas a maior parte das minhas influências vieram da poesia mas também vêm muito das artes plásticas e da música. Sou muito ligado, por exemplo, à música e à pintura e às vezes aquilo que escrevo tem mais que ver com quadros que vi ou com pintores que admiro muito ou com músicos como a Billie Holiday que é uma intérprete que eu adoro. E às vezes acho que aquilo que escrevo tenta-se aproximar daquilo que eu sinto ou pressinto nas artes paralelas que não propriamente a literatura.

N.R.- O Valter é escritor, artista plástico, cantor, baterista, dj entre outros. Se tivesse que escolher apenas uma arte. Seria a escrita a escolhida?
V.H.M.- Sim, eu sou escritor. Todo o resto faço porque posso fazer, me apetece ou porque gosto. Mas é uma tentativa, uma experiência, não é algo que eu faça profissionalmente. Não é algo que eu proponha às pessoas para levarem demasiado a sério, é uma experiência.

N.R.- Para terminar tem já algum romance em vista para breve? Ou alguma obra de poesia?
V.H.M.- Estou a começar neste momento uma história nova, por isso ainda estou a fase de uns pequenos apontamentos, de escolher alguns personagens e por isso ainda estou a olhar para as pessoas, a ver se faço um casting. Estou a fazer um casting. Às vezes conheço pessoas que me inspiram, figuras engraçadas, estou nessa fase. Ainda não tenho nada de muito concreto mas estou a deixar-me seduzir por alguma coisa… 

João Pereira e Raquel Evangelina
Fotografia: Foto Ideal

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